25.10.05

À UMA

Rubicundo e boleado, com o pináculo da jactância mais exposto pelo amolentar do filtro dos artifícios, que isto do tempo tem os seus cânones, ali estava ele, demasiado elefântico para leão, em todo o caso extraordinário.

Os jornalistas, a venerável distância, entreolhavam-se, medindo a figura intransigente e pesada. Hesitavam, pois sabiam dos repentes rudes a que a criatura era dada e lá para açoites do telhudo é que não estavam virados.

Empurrando-se uns aos outros, lá foram avançando, alguns às arrecuas.
Que diabo, a criatura era um candidato, tinham de lhe sacar umas afirmações, mesmo com risco.

Um deles, mais arrojado, lá se afoitou:

-Senhor, dizem que vem a barrar caminho ao seco algarvio. Não acha que é pouco para restaurar o país? Qual é afinal o princípio de Vossa Senhoria nesta questão?

-Debates! disse como um tiro. Pasmo geral.

- Bem, mas há-de haver um princípio, uma linha de acção, mesmo que em esboço?

- Debates! bradou.

- Mas, mesmo sem esboço, tem de haver qualquer coisa…

- Debates! rugiu.

- Pois sim, mas, por outro lado, temos uma crise económica, e bem séria ao que parece…

- Debates! roncou. O pasmo transformava-se em horror.

- Apre. E a política externa? Aí sim, com certeza…

- Debates! silvou, agudíssimo.

- Santo Deus! Vamos à cultura, que é uma área que Vossa…

- Debates! uivou.

- Mas olhe, parece que há aí um revanchismo de direita, quiçá larvar...

- Debates! flechou.

Em torno havia já terror. Fizeram-se outras experiências.

- Que horas são, se faz favor?

- Debates! ciciou, inumano.


A atmosfera tornada irrespirável, os cabelos em pé, os jornalistas fugiram.
À uma.




(sobre um texto de Eça
Lourenço bravo)

5 Comments:

At 10:40 da tarde, Anonymous Anónimo said...

notavel este pastiche do "economias" do Eça sobre o lendario "estafermo"
Queremos mais

joana l
ruil

 
At 11:06 da tarde, Anonymous Anónimo said...

É natural que um artista de circo queira circo, mais circo e ainda mais circo.
Ou não é ?

mario lopes

 
At 11:28 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Delicioso naco. O ridiculo é de facto uma arma feroz.

joao pires

 
At 12:08 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Bem montada esta cena - de uma realidade evidente - de caricatura queirosiana, que nos mostra como as criaturas se revelam na anedota.

graça machado

 
At 12:22 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Excelente núnero. O artista exibido ao vivo.
gf

 

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