28.12.05

A proposta de Cavaco Silva

Ao contrário do que alguns defendem, as declarações de Cavaco Silva ao Jornal de Notícias e o seu posterior desmentido não são apenas dois pormenores de campanha que os seus adversários procuram, a todo o custo, empolar.

1. Quer se queira, quer não, Cavaco Silva sempre apareceu ao país como um homem de acção, mais talhado para o exercício do poder do que para as funções de representação. Este é, aliás, o ponto forte e o ponto fraco da sua candidatura. Se, por um lado, os portugueses querem, na Presidência, alguém que, pelo seu perfil, lhes dê garantias de exigência e de rigor, por outro, sabem que a guerrilha institucional e a instabilidade política são sinónimos de conflitos que só agravam a crise e pioram a situação. Por isso, querem Cavaco para pôr o país na ordem; mas não querem que Cavaco seja, no país, um factor de desordem. O caminho para a vitória, podendo ser curto, sempre foi estreito.

2. A estratégia de Cavaco Silva não é tanto defensiva (como tem sido dito) mas principalmente equívoca, de forma a conseguir um equilíbrio (difícil) entre as expectativas que desperta e os riscos que essas mesmas expectativas comportam. É por isso que Cavaco Silva não pode deixar de garantir que vai ser um Presidente "activo", "atento" e "interventivo". E, ao mesmo tempo, sente necessidade de apregoar o seu desapego pela política e de defender a estabilidade a qualquer preço. Como se dissesse (embora sem o dizer), contem comigo para mandar; mas não me peçam para intrigar.

3. A atenção permanente que Mário Soares dedica a todas as declarações do seu adversário não tem nada de inocente. Muito menos de condenável. Mário Soares, como, aliás, Cavaco Silva, sabe como este equilíbrio é difícil. Não foi por acaso que, na primeira parte do debate entre os dois, Soares nunca deixou de perguntar: "Como é que o senhor vai fazer isso?". Porque Mário Soares sabia que, a haver uma resposta, esta só poderia apontar para a inutilidade do cargo ou para a ingerência do Presidente. Cavaco, obviamente, nunca lhe repondeu.

4. Curiosamente, respondeu-lhe, hoje, quando propôs um novo secretário de Estado ao primeiro-ministro, através do Jornal de Notícias. Não que a proposta, em si, despojada do candidato, não possa ser vista como um pormenor de campanha como defende Paulo Gorjão Sucede que o problema não está tanto na proposta como na sua ligação à imagem de Cavaco Silva. É isso que não passou desapercebido aos adversários e é isso que a vai manter, durante algum tempo, à tona da actualidade. E não vale a pena vir com as "propostas concretas" de Mário Soares - porque, justa ou injustamente, Mário Soares suscita outro tipo de preocupações.

5. Só assim se justifica o erro em que caiu hoje Cavaco Silva, ao dar o dito por não dito, desmentindo as suas próprias declarações. Um erro que pode sair caro a quem usa a honestidade como principal trunfo político.

ccs

4 Comments:

At 10:58 da manhã, Anonymous Anónimo said...

"A atenção permanente que Mário Soares dedica a todas as declarações do seu adversário não tem nada de inocente. Muito menos de condenável. "

De facto não há nada a condenar .Cada um é livre de utilizar a estratégia que considera correcta.

Mas e a forma como essa "atenção permanente" é executada por MS ?
Também é normal ? Não é condenavel ?

 
At 1:22 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Paulo Alves: ASSESSOR!

 
At 12:52 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"a quem USA a honestidade"... disse bem. É uma bela arma de arremesso no populismo reinante.

 
At 7:48 da tarde, Blogger Paulo Alves said...

Claro que deu o dito por não dito! Pior, acobardou-se. Há muito que já se apercebeu que os seus acessores tem medo de Soares e dos portugueses. Estes últimos é que conhecem tão bem a «FRENTE COMUM DE ESQUERDA ÀS PRESIDENCIAIS» que dificilmente mudam o voto.
Valha-nos a inteligência do povo, que destes assessores a história não rezará. (Bem vinda Constança).

 

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