Minha Rica Casinha
28.2.07
O mapa de Portugal
«(...) o meu partido é o mapa de Portugal. (...) fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem a grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.»
Miguel Torga
crisdovale
Rosas aljofradas
'Contas paralelas são normais'
Uma coisa assim, tão fresca e simples, merece Camilo:
«- Tragam-me a mim uma rosa de musgo, disse ela às amigas. E as amigas volveram sem a rosa. Desci ao jardim, colhi duas rosas aljofradas das lágrimas da aurora, pedi licença para lhas oferecer, e disse:
-Não as enxuguei, para não privar as florinhas das carícias de um anjo.»
cristovãodoo vale
Mirante
A que virá a brutal homenagem prodigalizada hoje a Mira Amaral no Europarque?
Isto, dias depois de um suspiro do próprio, dando conta à população de que estaria disponível para voltar à política activa...
crisdovale
27.2.07
Bravíssimo
Com Clarice Lispector, um brinde ao galhardo Insurgente:
"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas"
cristovao do vale
brunoventana
Quem gosta da música
Uma estranha ideia de liberdade.
Por Victor Abreu.
Coisas que aprendi nos últimos dias
(in O Insurgente)
crisdovale
Antiguidades
Até ao momento em que o inimigo se lhe tornasse perigoso ou necessário, e urgisse, para montá-lo manso, cingir-lhe ao dorso uma vistosa albarda de ministro.
Fialho de Almeida
brunoventana
Sai uma de filetes
“No notar-se-lhe a ausência residia em parte o seu encanto”
Ladrilhando o percurso, com risquinho bem feito para dar o elegante, lá vai ele, pimpão, bater uma engraxada ao afiambrado em pleno Chiado, à direita no sentido descendente, quase ao nível da Bénard...
Deve julgar-se um Jerónimo Condeixa, pois se até os transeuntes olha com um comprazimento finório.
brunoventana
26.2.07
A escritura
"O que a voz não pode exprimir juntamente em diferentes lugares e a diversas pessoas em um mesmo tempo, o faz a escritura com grande perfeição..."
Francisco Roiz Lobo
guidosarraza
Limites e companhia limitada
Xanana autoriza operação de captura do major Alfredo Reinado, constatando que o rebelde "passou dos limites"...
Levanta-se, todavia, a seguinte questão: o major, "os limites", já os passou há muito, só que não os passou sózinho, passou-os em (muito) boa companhia. Por que razão terá dado, agora, em "passar dos limites"... desacompanhado?
crisdovale
25.2.07
Foguete de três respostas
«Vais ler, baptizadas com um título simbólico, algumas páginas de circunstância.
Fogo preso é, como sabes, e expressiva designação de um género de pirotecnia em que toda a inventiva se processa ao rés-do-chão.
Ao invés da girândola, de morteiro ou do simples foguete de três respostas, que são delírios soltos, aqui a fantasia arde, roda, faísca, estoira, mas não voa.
Amarrado, o engenho do artífice não tem licença para subir ao céu de nenhuma ilusão e desprender-se de lá, no fim da vertigem, numa lágrima de colorida melancolia.»
miguel torga
crisdovale
Rebobinando o enredo
“Quem pilhou, pilhou, quem não pilhou, pilhasse!”
O Nacional
De 24 de Dezembro de 1834 até 27 de Maio de 1835, tivemos o Governo Palmela/Linhares, de coligação entre palmelistas e chamorros.
Os oposicionistas chamaram-lhe “uma camarilha feita para devorar o país à sombra de uma criança”.
Deram-lhe o nome de “pastelão”:
“Um pasteleiro queria
Fabricar um pastelão
E, porque tinha de tudo,
Deram-lhe o nome de fusão.”
Em 15 de Julho, dá-se uma mudança radical no Governo com a entrada de Rodrigo da Fonseca, na sequência de uma combinação feita entre Saldanha e Silva Carvalho. O Governo deixa de ser o “ministério dos impossíveis” e passa a ser conhecido como o “ministério dos godos” ou o “ministério do último rei godo”, em alusão ao nome de Rodrigo.
Este, que o povo, no seu saber, apelidava de “O Raposa”, sabia de facto da poda, como se vê pelo seu delicioso conceito da chamada “política de empregadagem”:
“Postos todos a comer à mesa depressa passariam de convivas satisfeitos a amigos dedicados”.
Ao morrer, deixou o resumo de quase tudo:
“Nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste.”
crisdovale
A talhe de foice
“The worst thing about being a depraved pirate is having to work with a bunch of depraved pirates”
Piratas capturaram um cargueiro da ONU ao largo da Somália
Traz isto a talhe de foice fazer o ponto a uma outra navegação - a nossa - com Camilo:
«Temos tudo quanto podem ambicionar os netos daqueles que civilizaram mundos novos.Só nos falta – diga-se a verdade sem presunção – falta-nos uma pequena coisa, que faça os homens bons:falta-nos a virtude e a moral; falta-nos o respeito à lei, e a lei que deva respeitar-se; falta-nos esse quase nada que faz um povo de traficantes e de corruptos uma sociedade de irmãos e de amigos…» (in Dispersos)
crisdovale
O que aconteceu a VPV?
Vasco Pulido Valente, aparentemente num tom sério, dirige-se a Paulo Portas (Publico-25.2) e, depois de lhe dar umas orientações, atira que "os riscos que se prepara para correr só lhe valem a pena, se unir ou dominar a direita."
O arroubo não se fica por ali:"Se o futuro CDS de Paulo Portas for subversivo, sem ser populista, talvez nos tire um dia desta vil tristeza."
Isto não está fácil.
crisdovale
24.2.07
Encanação e direito divino
“Ilustríssimo e Exmo. Senhor Pinto Coelho, digno director da Companhia das Águas de Lisboa e digno membro do Partido Legitimista.
Dois factores igualmente importantes para mim me levam a dirigir a V. Ex.ª estas humildes regras: o primeiro é a tomada de Cuenca e as últimas vitórias das forças carlistas sobre as
tropas republicanas, em Espanha; o segundo é a falta de água na minha cozinha e no meu quarto de banho.
Abundaram os carlistas e escassearam as águas, eis uma coincidência histórica que deve comover duplamente uma alma sobre a qual pesa, como na de V. Exª, a responsabilidade da canalização e a do direito divino.
Se eu tiver a fortuna de exacerbar até às lágrimas a justa comoção de VExª, que eu
interponha o meu contador, EXmo. Senhor, que eu o interponha nas relações da sensibilidade de V. Exª com o mundo externo! E que essas lágrimas benditas, de industrial e de político, caiam na minha banheira!
E, pago este tributo aos nossos afectos,
falemos um pouco, se V. Ex.ª o permitir, dos nossos contratos.
Em virtude de um escrito, devidamente firmado por V. Exª e por mim, temos nós – um para com o outro - certo número de direitos e encargos.
Eu obriguei-me para com V. Ex.ª a pagar a despesa de uma encanação, o aluguer de um contador e o preço da água que consumisse.
V. Exª, pela sua parte, obrigou-se para comigo a
fornecer-me a água do meu consumo. V.Exª fornecia, eu pagava. Faltamos evidentemente à fé deste contrato: eu, se não pagar, V Exª, se não fornecer.
Se eu não pagar, V.Exª faz isto: corta me a canalização. Quando V. Exª não fornecer, o que hei-de eu fazer, Exmº Senhor?
É evidente que, para que o nosso contrato não seja inteiramente leonino, eu preciso no caso análogo àquele em que V.Exª me cortaria a mim a canalização, de cortar alguma coisa a V.Exª …
Oh! E hei-de cortar-lha!..
Eu não peço indemnização pela perda que estou sofrendo, eu não peço contas, eu não peço
explicações, eu chego a nem sequer pedir água!
Não quero pôr a Companhia em dificuldades, não quero causar-lhe desgostos, nem prejuízos!
Quero apenas, esta pequena desafronta, bem simples e bem razoável, perante o direito e a justiça distributiva: quero cortar uma coisa a V. Exª!
Rogo-lhe, Exmo Senhor, a especial fineza de me dizer, imediatamente, peremptoriamente, sem evasivas, nem tergiversações, qual é a coisa que, no mais santo uso do meu pleno direito, eu possa cortar a V. Exª.
Tenho a honra de ser.
De V. Exª
Com muita consideração e com umas tesouras.
(a)-Eça de Queirós”
bruno v
Nau gabada de nova, e forte, e bem marinhada
O liberalismo não era simplesmente um instrumento ideológico, mas uma cultura que envolvia a elite e limitava o que ela podia pensar e executar. Franco conservou-se fiel ao velho projecto liberal de integrar os indivíduos capacitados num estado transparente e aberto, sob o império da lei. O seu ideal político manteve-se o da monarquia liberal, o equivalente dinástico da república conservadora representada pela Terceira República francesa : um regime que preservasse a ordem ao mesmo tempo que, gradual e consensualmente, fosse facilitando o progresso.
Em segundo lugar, as origens do espírito reformista que animava João Franco não estavam na rejeição do liberalismo, mas sobretudo na tentativa de consumar as soluções para que apontava o debate liberal. Politicamente formado na intersecção do radicalismo universitário e da esquerda constitucional com o oportunismo fontista, Franco era, social e culturalmente, um membro da elite liberal, preso às ideias e aos costumes dessa elite. A crise de1890 exaltou a sua ânsia de reformar, tal como crises na´logas em 1868 ou em 1876 haviam entusiasmado outros reformadores. O liberalismo partia de determinados princípios, mas constituiu-se, enquanto regime político, como um debate entre várias alternativas. O reformismo era um efeito desse debate. Era através das reformas, da mudança legal, jurídica, que os liberais pensavam a sua relação com o passado e com o futuro. Franco e os outros chefes políticos do regime tiveram sempre um largo menu de opções, dentro dos termos do debate liberal, com as quais podiam provar a sua vontade de melhorar o País. A este respeito não houve de facto uma ruptura entre o Franco de 1895 e o Fontes de 1885.
Finalmente, a última observação diz respeito ao autoritarismo de Franco. Num País em que 70% da população adulta era analfabeta e perante uma classe média pequena e faccionalizada, a única via para a reforma estava no Governo apoiado pelo rei. Tinha sido sempre esta a via do liberalismo, desde 1834. O reformismo teria sempre de ser “autoritário” neste sentido: o de reforçar o poder do executivo, por via da monarquia, contra a elite política.
Mas este “autoritarismo” foi um autoritarismo liberal que nunca deveria ter sido confundido com o autoritarismo comunista ou fascista do pós-guerra.
Em suma, o franquismo, pelas suas origens, não tem absolutamente nada a ver com os movimentos antiliberais que se desenvolveram na Europa da década de 20."
Rui Ramos
Brunventana
23.2.07
Lavagantes vivos
«Senhor de San Patrizio – disse Mazarino, aproximando um prato de lavagantes vivos que pareciam cozidos de um de lavagantes cozidos que pareciam vivos…»
Umberto Eco
Parafraseando o Cardeal Mazarino, cujo motto era “ Le temps et moi”, eu finjo, eu acomodo-me, dissimulo. Mas quando o momento chegar, vereis do que sou capaz.
brventana
Todo alçado no bico dos botins
«Nesse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo, dia de touros: de repente uma visão rebrilhou, flamejou, atraindo-me deliciosamente: - era a tourada vista de um camarote; depois um jantar com champagne; à noite, a orgia, como uma iniciação! Corri à mesa. Atulhei as algibeiras de letras sobre Londres. Desci à rua com um furor de abutre fendendo o ar contra a presa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a, berrei:
-Aos touros! »
Eça de Queirós
brunoventana
Spin-doctoring
«Explain to me just why I should waste my time with a load of fucking wankers like you when you`re not going to write anything I tell you anyway»
Alastair Campbell
« ….The word spin – doctor, which conveys the greater degree of menace, subterfuge and mystique in the modern PRO `s job, came later. It originated in the USA and is said to have derived from baseball. According to Dr Emma Lenz of the Oxford English Dictionary, the first recording use of the term was by Saul Bellow in his 1977 Jefferson Lectures. The Collins English Dictionary (1999 edition) defines spin – doctor as a person who provides a favourable slant to an item of news, potential unpopular policy, etc., especially on behalf of a political personality or party.
The word was not taken up in Britain until the early 1990`s, when it was indelibly associated with the rise to public prominence of Peter Mandelson and his school of New Labour media experts.»
Peter Oborne and Simon Walter
(“Alastair Campbell”)
Brunoventana
A golpes de óleo de fígado de bacalhau
« (...) O ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa João Soares admite que não tem um “apetite especial” para voltar a liderar o executivo da maior autarquia do país, mas reconhece que não pode mostrar-se “indisponível” para a tarefa. (..)» Publico-23.2
Temos pois o patusco, que noutros tempos, ardendo o edifício da Câmara, se afivelou de bombeiro para os telejornais, a superar a falta de apetite (especial) a golpes de óleo de fígado de bacalhau para, recortando-se no varandim dos Paços do Concelho, assomar com aquela simplicidade que "os portugueses fazem o favor de reconhecer" muito sua.
Borbulha-lhe logo à superfície o frenesim de "travar combates".
Temos asneira.
crisdovale
Ruge-ruge
Ter toadas he ter noticias mas não he ter certezas. Do ruge-ruge se fazem as cascaveis, porem parece-me que não he esta a mata de onde há de sair o coelho.
Cavaleiro de Oliveira
(Cartas)
guidoSarraza
Something is stirring
Bagehot
It looks as if voters have started to make up their minds about Gordon Brown and David Cameron
22.2.07
No centro do acordeão
ASY - «(...) Quando o meu mestre maia veio cá, disse: "Alfredo, escolheste bem. Portugal é o umbigo do Mundo." Portugal é como um plexo solar, está no centro deste acordeão que é o passado, o presente e o futuro do Mundo. A minha expectativa é que Portugal me ensine muito.
Visão -O que aprendeu até agora?
ASY - «A ter muita paciência...»
Alfredo Sfeir-Younis
(Visão-22.2)
crisdovale
21.2.07
O reajuste
«Lisboa: Carmona vai tutelar Finanças
(...)A vereadora Marina Ferreira, responsável pela Mobilidade, passará a ter também a tutela sobre o Património, que pertencia igualmente ao vice-presidente.
Desta vereadora transitam os Recursos Humanos para o responsável da Cultura, José Amaral Lopes.
A Modernização Administrativa e Gestão da Informação, que pertenciam a Gabriela Seara, passam para o vereador do Ambiente e Espaços Verdes, António Prôa.
O vereador Rodrigo Saraiva, que substituiu Gabriela Seara, assumirá os pelouros dos Serviços Gerais e da Juventude, que estavam sob a responsabilidade da vereadora.
Paulo Moreira, que entra para o executivo após a saída de Fontão, ficará com as Actividades Económicas (que engloba a gestão dos mercados municipais e o licenciamento da actividade comercial), que pertencia ao vice-presidente.(...)»
Diario Digital-21.2
crisdovale
Vida
Bem a propósito do referendo do passado dia 11, com 22 semanas, podia ser um vestígio de um aborto, mas são antes os minusculos pés de um insignificante corpo com apenas 24 centímetros e 284 gramas.
Uma vida que a vontade e a ciência conseguiram preservar. É a Ammilia e após cerca de 4 meses numa incubadora em Miami parece estar em condições de ir para junto da sua família.
Mais uma prova do surpreendente milagre da Vida!
Eusébio Furtado
20.2.07
'Gostamos de trabalhar consigo'
20 de Fevereiro de 2005
- COM SAINETE (20.2.2005) - Estava escrito nas estrelas e na “Nha rica” (vd. Blairismo à transmontana – 28.9.04).
- LÁ VAI A ROLA TODA TOLA (20.2.2005) - (Vd. 19.11.04)
- DESENFREADAMENTE (20.2.2005) - (Vd.Relendo o futuro - 3.2.05)
Crisdovale
19.2.07
Trufados de engenho
«Um perito é alguém que começa por saber alguma coisa sobre alguma coisa, progride sabendo sempre mais e mais sobre cada vez menos. Até que sabe tudo sobre nada.
Um filósofo começa por saber alguma coisa sobre alguma coisa, prossegue sabendo cada vez menos sobre cada vez mais; até que, finalmente, não sabe nada sobre tudo.»
Niels Bohr
crisdovale
18.2.07
Um fundo de comparsaria
Fialho de Almeida
cristovaodovale
Mi-Mi-Mi, Miccoli
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma, forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
Na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São vôos de estátuas súbitas
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
– afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.
Carlos Drummond de Andrade
crisdovale
O que fará correr o José Miguel?
"Descobrir hoje, como descobriu o dr. Júdice, que o PSD é 'muito equívoco' excede a imaginação. E pedir hoje a Marques Mendes que esclareça se o PSD é da 'direita' ou do 'centro-esquerda', 'liberal' ou 'conservador', agride o bom senso."
Vasco Pulido Valente, PÚBLICO, 18-02-2007
crisdovale